A biópsia de glândulas salivares menores — também chamada de biópsia labial — é um procedimento ambulatorial, feito sob anestesia local, em que se retiram pequenas glândulas da mucosa do lábio inferior para análise ao microscópio.
Apesar de simples, é um exame com peso diagnóstico considerável. Na investigação da síndrome de Sjögren, o resultado tem o mesmo valor, dentro dos critérios internacionais, que o anticorpo anti-SSA/Ro. E, diferentemente da punção aspirativa por agulha fina, não se trata de investigar um nódulo: aqui as glândulas são normais ao exame clínico, e o que se procura é o padrão do infiltrado inflamatório no tecido.
Por que o lábio inferior
As glândulas salivares menores são centenas de pequenas unidades distribuídas pela mucosa da boca, faringe e laringe. Elas produzem uma fração pequena do volume salivar total, mas respondem por boa parte da secreção mucosa de repouso — aquela que mantém a mucosa lubrificada fora das refeições.
A mucosa labial inferior concentra essas glândulas em uma camada logo abaixo do epitélio, acessível por uma incisão de poucos milímetros. É por isso que ela se tornou o sítio padrão: a amostra é representativa, o acesso é direto e a morbidade é baixa.
Principais indicações
Síndrome de Sjögren
É a indicação mais frequente. Nos critérios classificatórios ACR/EULAR de 2016, a presença de sialadenite linfocítica focal com focus score igual ou maior que 1 foco por 4 mm² vale 3 pontos — a mesma pontuação atribuída ao anti-SSA/Ro positivo, e a maior da tabela.
O exame é particularmente útil em duas situações. Em pacientes soronegativos, quando há sintomas de boca e olhos secos consistentes mas o anti-SSA é negativo, a biópsia pode ser o que define a classificação. E em quadros duvidosos, já que boca seca tem muitas causas — medicamentos anticolinérgicos, ansiedade, respiração oral, radioterapia prévia, diabetes — e a histologia ajuda a separar uma doença autoimune de uma xerostomia de outra origem.
Outras condições
A mesma amostra pode revelar depósito amiloide na amiloidose sistêmica, granulomas não caseosos na sarcoidose, ou infiltrado rico em plasmócitos IgG4 positivos na doença relacionada a IgG4. Em transplante de medula óssea, a biópsia labial é usada na avaliação da doença do enxerto contra o hospedeiro em sua forma crônica.
Como o procedimento é feito
O paciente permanece acordado, sentado, e o procedimento leva cerca de vinte minutos.

Após antissepsia, infiltra-se anestésico local na submucosa do lábio inferior, lateralmente à linha média — a região central é evitada porque concentra ramos sensitivos e tem maior chance de alteração de sensibilidade. Faz-se então uma incisão linear curta, de aproximadamente 0,8 a 1,0 cm, paralela ao vermelhão do lábio.
As glândulas aparecem como pequenos lóbulos esbranquiçados logo abaixo. São dissecadas com delicadeza, sem pinçamento direto do parênquima e evitando cautério excessivo, porque tecido amassado ou carbonizado gera artefato e pode inviabilizar a leitura histológica. Retiram-se em geral quatro a seis glândulas separadas — quatro é o mínimo aceitável, e amostra insuficiente é uma das causas mais comuns de resultado inconclusivo.
O material é enviado em formalina, com identificação do lado da coleta e da suspeita clínica no pedido. Essa informação orienta o patologista: sem ela, o laudo tende a voltar como descrição inespecífica, sem o cálculo do escore.
O fechamento é feito com dois pontos simples de fio absorvível. Não há necessidade de retorno para retirada de sutura.
Recuperação
O desconforto costuma ser leve e controlado com analgésicos comuns. Edema do lábio nos primeiros dias é esperado. Orienta-se dieta fria ou morna e higiene oral cuidadosa na primeira semana.
A queixa mais frequente no pós-operatório é alteração de sensibilidade em um ponto do lábio — formigamento ou dormência localizada. Na maioria dos casos é transitória. Sangramento e deiscência da sutura são incomuns. A cicatriz resultante é discreta e fica na face interna do lábio, sem repercussão estética externa.
Como o resultado é interpretado
O patologista procura focos: agregados de cinquenta ou mais linfócitos agrupados ao redor de ductos, em meio a parênquima glandular preservado. Conta-se quantos focos existem por 4 mm² de tecido — esse número é o focus score. Um escore igual ou maior que 1 caracteriza sialadenite linfocítica focal e é considerado positivo.
Dois pontos merecem atenção na leitura do laudo. Nem todo infiltrado é focal: a sialadenite crônica inespecífica, comum em fumantes e em idosos, produz infiltrado difuso com fibrose e atrofia acinar — achado diferente, que não sustenta o diagnóstico de Sjögren. E o laudo precisa informar a área avaliada, porque sem esse dado o focus score não é calculável e o resultado perde valor.
O que a biópsia labial não responde
Este exame não avalia nódulos. Quando existe uma massa em glândula parótida ou submandibular, o caminho é outro — punção aspirativa por agulha fina, com o resultado classificado pelo Sistema de Milão. A biópsia incisional de tumor de parótida é, aliás, formalmente evitada, pelo risco de disseminação tumoral e de lesão do nervo facial.
Também não substitui a avaliação clínica. O diagnóstico de Sjögren é uma composição de sintomas, exames de função lacrimal e salivar, sorologia e histologia, e nenhum desses elementos isolado fecha o quadro.
Quando procurar avaliação
O encaminhamento para biópsia labial costuma partir do reumatologista, do oftalmologista ou do dentista, diante de um quadro de secura persistente em boca e olhos. A indicação é individual e depende do que já foi investigado.
Se você recebeu essa orientação e tem dúvidas sobre o procedimento, agende uma avaliação para discutir o caso.
Por Dr. Guilherme de Souza Silva — CRM-MG 39.559 · RQE 29.166. Especialista em Cirurgia de Cabeça e Pescoço · Oncologia Cutânea · Belo Horizonte.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. A indicação de qualquer procedimento depende de avaliação individual.